Fantasia e Cia.

Prazer em imaginar.
 

19.2.07

O nascer de um urso (IV)

Oldalin guiava seu cavalo com extrema perícia por entre o emaranhado de árvores da Floresta do Sul, não era fácil se orientar à partir da região em que adentrava, mas ele era o chefe caçador da tribo de Terralta, e todos os que vinham atrás confiavam em seu senso de direção. Havia algumas horas que saíram dos limites seguros de sua tribo, e apesar de terem iniciado a cavalgada ainda antes do sol despontar no horizonte, temiam que não pudessem rever sua amada casa por um bom tempo. As histórias do retorno da maitranda e dos demônios que matavam na floresta se alastravam rapidamente... Poucos foram os que sobreviveram a tais encontros malditos, e menos ainda os que contavam todos os membros do corpo ainda inteiros após escaparem também com a vida. Mas não importava, por mais terríveis que fossem tais histórias trazidas pelos mensageiros do norte, todos os caçadores bárbaros de Terralta sabiam que podiam confiar no chefe que seguia a frente. Ele lutara contra a maitranda ainda jovem, e sobrevivera. Ele era Oldalin o Grande Urso, e isso bastava para que tivessem esperança de voltar para casa sãos e salvos, de preferência com algumas cabeças de demônios para cobrir as tendas de troféus de guerra...

Em seu cavalo, Oldalin carregava mantimentos, uma cota de malha, um arco de madeira de lei, e dois machados. Um deles, o que seu pai havia lhe dado havia muitos anos, servia apenas como um talismã de sorte, visto que já havia sentido o efeito do tempo... Não se comparava aos machados trazidos do Elmo pelos anões mercadores. Sim, os anões eram um povo estranho e glutão, mas sabiam fazer machados como ninguém!  

E o sol já havia chegado ao topo do céu, para então descer vagarosamente e trazer a dúvida que vinha com a noite:  

“Senhor! Os homens pediram para que decidisse se vamos continuar mesmo a noite ou montar acampamento.’ – Veio um dos caçadores de encontro a Oldalin.

“Diga-lhes que será melhor nos mantermos em movimento, ao menos até que os cavalos tenham se cansado... Trouxemos tochas e não temeremos servir de alvo para quem for, pois somos muitos!” – Respondeu o líder de Terralta.

“Mas… Mas senhor… Ouvimos histórias de grupos de caça inteiros que sucumbiram aos seres infernais que surgiram em nossa terra… Relatos horríveis, como o senhor há de lembrar.”

Oldalin virou-se para o homem e fitou-o nos olhos (o que raramente fazia), e respondeu-lhe: “Que seja! Se forem muitos, de que adianta lutarmos com eles de manhã ou de noite? Para Thrundaar a noite é a amante do dia, que vem para esfriar as rochas de sua morada do calor do sol... Um bárbaro de Terralta não deve temer caçar durante a noite.”  

Com certo constrangimento, o caçador comunicou ao resto do grupo que caçava aos demônios de que a caçada prosseguiria até os cavalos estarem exaustos... E houve aqueles que passaram a exigir mais de seus cavalos, colocando mesmo pedaços de lenha em suas garupas, para que a noite não trouxesse a morte...  

E veio a penumbra... Alguns dos batedores seguiam pouco a frente do resto do grupo, com tochas nas mãos. Seriam alvos fáceis para as criaturas bestiais, mas serviam também como proteção para que o resto dos caçadores não fosse emboscado em alguma região de vegetação muito densa.

O jovem Gorz, coitado, era um dos três batedores que se revezavam em posições distintas a frente do grupo. Enquanto um deles seguia pela mata com sua tocha revelando o caminho, os outros dois faziam mira com seu arco para qualquer eventualidade... Estavam em uma região de vegetação nem tão densa, com certo espaçamento entre os troncos das árvores, de modo que Gorz seguia em seu cavalo com o arco a fazer mira, enquanto um dos seus ia um pouco a frente com toda a luz que podiam enxergar...

Seu coração talvez fosse naquele momento um tambor de batalha. Suas batidas eram nervosas, raivosas, mas não atrapalhavam a sua pontaria, era o que ele esperava... Vinha em seu cavalo rogando ao senhor da montanha que lhe permitisse ao menos lutar de igual para igual contra seus inimigos, e não ser pego pela morte em uma emboscada, antes que houvesse tempo para reagir.  

Após algus minutos o caçador que seguia com a tocha parou seu cavalo e bradou quase que como num sussurro:

“A estrada! A estrada!”

Era tudo que o jovem Gorz desejava ouvir. A estrada de que falava era uma das poucas que cruzavam a floresta naquela região... Seguia do sul das Montanhas Rotun até quase a entrada do Elmo, o reino dos anões, e com certeza era um bom lugar para se fazer acampamento, pois não correriam um risco de emboscada como nas regiões de vegetação mais densa...

Desceram dos cavalos e se cumprimentaram. Passara um dia inteiro de caçada a demônios, e ainda estavam tão inteiros quanto as frondosas curmélias da Floresta do Sul (as mesmas da qual se extraiam as ervas curandeiras). Bastava esperar seu chefe e o resto do grupo, para que tivessem enfim uma noite de algum descanso em meio ao terror e ao medo.  

Esse, no entanto, seria o convidado para o festim noturno, e naquele meio de noite, numa das principais estradas da floresta, os três batedores de Terralta sentiram seu sangue gelar ao ver um homem envolto num manto esfarrapado e sujo de lama cambalear pela estrada. Não era muito alto e não parecia ameaçador, mas trazia um estranho brilho alaranjado que o tornava quase um ser fantasmagórico na visão dos pobres batedores.  

Prontamente, se posicionaram para a batalha... Gorz quase não teve forças para pegar a lança na garupa de seu cavalo, tal era o medo que sentia daquela maitranda, a morte em cor laranja!  

Não foi preciso usar a lança, após alguns passos cambaleantes, o homem encapuzado desfaleceu ao solo da estrada.

continua...

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